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quinta-feira, 23 de abril de 2009

O amor é de direita?

Faz quase dois anos, escrevi um post no Cão Uivador a respeito do mercantilismo do amor nos dias de hoje. Afinal, mais do que por amar, hoje em dia namora-se para mostrar aos outros. E, principalmente, para consumir - prova maior disso é o tal dia dos namorados, comemorado em junho.

Certa vez, li a frase que resume a vida de um típico conformista: "arrume um emprego, case, tenha filhos e morra". Pode parecer que o amor não serve para outra coisa que não "encaminhar a vida" - no caso, a própria. O resto, que se exploda: o importante é "eu ser feliz"; e, principalmente, aparentar felicidade. Uma grande besteira: uma ilha de felicidade em meio à infelicidade predominante tende a se tornar infeliz, e não o contrário.

Mas, afinal, é o amor de direita?

Em si, pelo contrário, ele é o que mais de esquerda pode existir. E mais: é capaz de alguém não entender direito e me chamar de machista, mas não há nada mais revolucionário do que um homem que ama de verdade. Pois ele rompe com o papel que lhe é destinado na sociedade, de "pegador/caçador", e, principalmente, de "dominador" - conforme diz Pierre Bourdieu em "A dominação masculina".

Porém, ao contrário do que até pode parecer, não necessariamente um homem que ama de verdade significa a simples inversão da ordem da dominação. Afinal, o amor considerado "verdadeiro" é, em primeiro lugar, "desinteressado" - ou seja, quase utópico. Ou seja, não amo porque a fulana "tem dinheiro" ou simplesmente "é gostosa" - o que "pega bem" com os amigos machistas. Nem apenas para não ficar sozinho. Logo, não é um falso amor, em que na verdade pensamos apenas nos nossos interesses. E, principalmente, é uma relação igualitária: eu não procuro dominar ela, e a recíproca é verdadeira.

Como eu já escrevi faz um certo tempo, a pessoa de esquerda não coloca seus interesses individuais acima de tudo, bem diferente do direitoso. E isso se aplica, claro, ao amor. Pois pode parecer exagero, mas um casal é uma coletividade. Bem pequena, mas é.

Ou seja: o verdadeiro amor é de esquerda. Já o falso - aquele que se destina a interesses individuais e mesquinhos de um (ou até dos dois), que serve apenas para "mostrar" aos outros ou para consumir em junho -, é e sempre será de direita.

E é também de direita o amor iniciado pela escolha baseada em padrões pré-determinados pela sociedade. Nada mais conservador do que achar que o homem tem sempre que tomar a iniciativa, ser mais velho e ganhar mais do que a mulher. "Tem que ser um protetor da mulher frágil": essa frase serve para mascarar a dominação.

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Pode até parecer contraditório eu escrever isso, sendo que dois meses atrás eu defendi que a paixão deveria ser chutada. Não retiro o que eu disse. Pois paixão não é igual a amor: enquanto o último tem racionalidade, a primeira é apenas emoção - e que, num piscar de olhos, pode se transformar em ódio.

A paixão deve, sim, ser evitada a qualquer custo, ela faz um mal tremendo. Já o amor não.

Mas é também um problema, ironicamente, que o amor seja baseado na razão. Pois é racionalmente que eu olho para os lados e não vejo muitas mulheres que mereçam ser amadas. Pois a maioria apenas quer homens "malandros", dominadores, que colocam seus interesses próprios acima de tudo - e elas não percebem que, assim, acabam legitimando a dominação masculina. Eu, como homem de esquerda que sou, me recuso a tentar conquistar mulheres assim.

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