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quinta-feira, 22 de maio de 2008

sábado, 17 de maio de 2008

Estradas De Mão Única

As viagens que fazia nem sempre tinham sentido a seus amigos e conhecidos. Ora, só a eles não o tinham: para sí, eram triviais, recorrentes e necessárias como se alimentar. Era o tempo de juntar um dinheiro, organizar sua vida, e a mochila estava pronta para mais um embarque, para mais pessoas em sua vida, para novos lugares em sua memória.

Naquela vez, no entanto, parecia diferente: a ansiedade vinha lhe tomando conta já havia alguns dias, sua mochila estava pronta desde muito antes, e esse meio-tempo foi usado somente para tomar cervejas nos bares da cidade até o amanhecer, quando dormia para acordar só no meio da tarde seguinte. Acreditava que, assim, o tempo passaria mais rápido, e o dia tão esperado chegaria antes.

A partir de quando o ônibus saiu da rodoviária, sob a chuva e o cinza do inverno, a cidade passou a se distanciar de sua vista conforme sentia que, junto, se distanciava todo seu mundinho. Era a sensação agradável que sempre lhe vinha quando viajava: a de deixar sua rotina monótona para trás, seu passado detestável, e a estrada, à frente, se mostrava até o horizonte, a partir do qual tudo seria novo. E agora essa sensação lhe era mais forte, mas nítina, mas íntima em seu coração, como se a decisão dessa viagem fosse mais perene do que o fora outrora, noutras circunstâncias.

Os pingos de chuva presos ao vidro na janela foram desaparecendo de seu alcance conforme a escuridão da noite chegava. No lugar do sono, a nostalgia da solidão - a alegria de estar só, rumo ao atraente desconhecido que se aproximava a cada quilômetro, a cada metro, a cada minuto. E o tempo passava acompanhando a estrada, e em poucas horas, sabia, estaria em seu destino.

Sempre que chegava, seus percursos não eram os tradicionais em que se pensa para viagens: caminhava pelas ruas desertas, pelo botecos das vielas perto do porto, ou pelos cafés baratos. Seu prazer era ver as pessoas, conhecer seus hábitos, seus visuais turvos, suas tristezas onipresentes. Era ficar sentado vendo a vida passar como um espectador, como se dela não fizesse parte, como quem visualiza um quadro pintado por uma criança - e o vê tosco, mas singelo.

E tudo isso lhe vem à mente no momento em que, já à noite, as luzes da cidade de sua origem somem no horizonte. Fecha, então, a cortina da janela, reclina o banco para trás, fecha os olhos e, em poucos minutos, adormece. No peito, a sensação da liberdade nômade, a organização de sua alma, e a certeza de que aquela se trata de uma viagem sem volta.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

As 10 Vantagens do Vagabundo Iluminado

Do Terra:

"O jornalista argentino Gonzalo Otálora escreveu o livro 'Feo', algo como sua autobiografia. Ele fala de um homem que usa lentes grossas nos olhos e é desprovido de um pouco de graça.

Otálora também ressaltou em sua obra o lado bom de tanta feiúra. E destacou o que chama de "Decálogo do feio". Confira:

Não somos enganados
Jamais uma viúva negra poderá nos dar o golpe. Nós feios temos um radar. Se alguma menina linda quiser ficar com um de nós e, em seguida, desejar ir para nossa casa, isso significa que algo está errado.

Ninguém nos acusa
Nenhuma pessoa irá nos acusar de assédio sexual no trabalho. Isso é certo devido a lógica das circunstâncias.

Ninguém duvida de nossas capacidades
As mulheres lindas são acusadas de saírem com os chefes para conseguirem escalar posições. Mas, se um feio "subir" na carreira, ninguém irá duvidar de sua capacidade para tal posto.

Livre de extorsão
Muitos homens acabam pobres depois de se envolverem em um relacionamento. Impossível que a mesma situação ocorra com um feio. Ninguém vai querer se "arriscar" tanto.

Somos incomparáveis
Não precisamos vencer o fantasma do corpo perfeito, pois ninguém irá se comparar conosco.

Amor honesto
Depois de superar a primeira impressão, as brincadeiras e tudo mais, se alguém ficar apaixonado por um feio, pode ter certeza que este é o amor mais honesto de todos.

Não esperamos na porta
Não precisamos esperar para entrar em um boliche, por exemplo. Nenhum segurança quer nos ter como companhia, eles logo nos mandam entrar.

Somos atendidos rapidamente
Não sofremos com a burocracia estatal ou privada. Tal como vemos no item anterior, as pessoas nos atendem muito rápido.

Podemos economizar
Se pararmos de brigar frente ao espelho e atirarmos a balança pela janela, terminamos com a angustia e economizamos uma grana.

Salvamos o planeta
Os feios merecem o Prêmio Nobel da Paz. Dizem que aos 11 anos desapareci de casa e fui abduzido. Os extraterrestres me analisaram e disseram: 'Se os humanos são assim, melhor pararmos de nos contagiar. Não convém invadir o planeta Terra'. Nós salvamos a humanidade."

sábado, 26 de abril de 2008

Poema de Vagabundo

Trecho do Poema Sujo, de Ferreira Gullar*:

"azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu"



*Pseudônimo do poeta maranhense José Ribamar Ferreira, vencedor do Prêmio Jabuti em 2007 com a obra Resmungos, como melhor livro de ficção do ano.

sábado, 19 de abril de 2008

Vagabundos São Seres Estranhos

Vagabundos são seres estranhos. Acordam em horários diferentes em cada manhã, mas sempre com suas caras suadas, sebosas, calorentas, as cobertas amontoadas no pé da cama, as roupas amarrotadas, gostos ruins na boca, corpos doloridos. Levantam-se vagarosamente, olham para os lados com desprezo pelo dia que se inicia, e pensam no nada que vivem. É do quarto à cozinha em poucos passos, à geladeira, à água gelada que desce esôfago abaixo, limpando seus corpos e suas almas.

O rádio às vezes toca alguma música nostágica, ou algum súbito de otimismo. E sempre as mesmas músicas, como se procurassem mensagens escondidas naquelas canções, algo lhes mostrasse a nova estrada a ser seguida, o novo destino entre tantos já tentados, e pouco descobertos.

O dia passa como todos os demais, como manhãs chuvosas, como um tempo parado em sí mesmo. E outro, e outro, e outro...

Vagabundos são mesmos serem estranhos. Quando chegam as noites, de novo pensam na vida morna, simples, sem sentido em que se encontram. Pensam na falta de força que têm para alterar suas rotinas urbanas, suas caminhadas sem rumo por lugares comuns e, ao mesmo tempo, estranhos. Lugares rotineiros, dos quais não conseguem se desvincilhar. Os mesmos lugares, pessoas... e a mesma vida: lerda, vagarosa... comum.

E depois de pensarem, de cartesianamente a nada chegarem, percebem que os domingos à noite são assim mesmos: estranhos como eles, e com aquela sensação de pequenez que nos vêm nessas horas. E, então, abrem uma cerveja, e com ela vão até a janela, e esperam um telefonema de uma guria qualquer para lhes fazer companhia, com quem conversarem num fim de dia triste, ou de outros vagabundos para com quem saírem e, pelo menos por algum tempo, fingirem dar sentido às suas existências em vidas que deveras não existem, ao lado de mulheres que, deveras, nunca terão.

Mas vagabundos são seres estranhos. No outro dia, se levantarão de novo vagarosamente, olhando para os lados com desprezo pelo dia que se inicia, e pensando no nada que vivem...

sábado, 5 de abril de 2008

A uma Trash Girl...

Um brinde também, minha querida,
a ti,
e à vida!

Que nos cria coisas estranhas,
antes tão perto,
ao lado,
mas invisíveis.

E agora
tão distantes...

Um brinde à vida!

Que nos sacaneia com surpresas surreais,
que nos salva de descrenças,
que nos faz crer nela novamente,
mesmo que timidamente.

Um brinde a vocês, mulheres!

Suas filhas da mãe que nos sugam,
que nos tomam nossas forças,
quando mais as afastamos,

e nos põem no colo.
Ah, nos põem no colo...

e nos acariciam,
nos fazem ver que somos, nada mais,
que um brinquedo,

da vida.

Um brinde à vida, Vagabundos,
um brinde à vida!

Que nos reconhece como nada,
que humilha nossos orgulhos,
nossas palavras de ordem.

Que nos põe como meninos
frágeis,
carentes,
solitários,
em mãos de mulheres,
que nem conhecemos.

Ah, Vagabundos...
Um brinde à vida, um brinde à vida...

quarta-feira, 2 de abril de 2008

É PRECISO ESTAR SEMPRE BÊBADO!

Saúdo os companheiros com a chegada da poesia nesse blog... Sempre fundamental. Aqui minha primeira contribuição nessa atmosfera. "Poema da Necessidade", do Carlos Drummond de Andrade, lido por "Tom Jobim". Não reparem o logotipo da Globo no final, afinal o fato de eles terem monopolizado até a poesia não quer dizer que a poesia deixou de existir.

Esse poema poderia ser uma espécie de lema pra qualquer vagabundo. Até faço essa sugestão aos companheiros. Que tal, companheiros?



abraços