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sábado, 17 de maio de 2008

Estradas De Mão Única

As viagens que fazia nem sempre tinham sentido a seus amigos e conhecidos. Ora, só a eles não o tinham: para sí, eram triviais, recorrentes e necessárias como se alimentar. Era o tempo de juntar um dinheiro, organizar sua vida, e a mochila estava pronta para mais um embarque, para mais pessoas em sua vida, para novos lugares em sua memória.

Naquela vez, no entanto, parecia diferente: a ansiedade vinha lhe tomando conta já havia alguns dias, sua mochila estava pronta desde muito antes, e esse meio-tempo foi usado somente para tomar cervejas nos bares da cidade até o amanhecer, quando dormia para acordar só no meio da tarde seguinte. Acreditava que, assim, o tempo passaria mais rápido, e o dia tão esperado chegaria antes.

A partir de quando o ônibus saiu da rodoviária, sob a chuva e o cinza do inverno, a cidade passou a se distanciar de sua vista conforme sentia que, junto, se distanciava todo seu mundinho. Era a sensação agradável que sempre lhe vinha quando viajava: a de deixar sua rotina monótona para trás, seu passado detestável, e a estrada, à frente, se mostrava até o horizonte, a partir do qual tudo seria novo. E agora essa sensação lhe era mais forte, mas nítina, mas íntima em seu coração, como se a decisão dessa viagem fosse mais perene do que o fora outrora, noutras circunstâncias.

Os pingos de chuva presos ao vidro na janela foram desaparecendo de seu alcance conforme a escuridão da noite chegava. No lugar do sono, a nostalgia da solidão - a alegria de estar só, rumo ao atraente desconhecido que se aproximava a cada quilômetro, a cada metro, a cada minuto. E o tempo passava acompanhando a estrada, e em poucas horas, sabia, estaria em seu destino.

Sempre que chegava, seus percursos não eram os tradicionais em que se pensa para viagens: caminhava pelas ruas desertas, pelo botecos das vielas perto do porto, ou pelos cafés baratos. Seu prazer era ver as pessoas, conhecer seus hábitos, seus visuais turvos, suas tristezas onipresentes. Era ficar sentado vendo a vida passar como um espectador, como se dela não fizesse parte, como quem visualiza um quadro pintado por uma criança - e o vê tosco, mas singelo.

E tudo isso lhe vem à mente no momento em que, já à noite, as luzes da cidade de sua origem somem no horizonte. Fecha, então, a cortina da janela, reclina o banco para trás, fecha os olhos e, em poucos minutos, adormece. No peito, a sensação da liberdade nômade, a organização de sua alma, e a certeza de que aquela se trata de uma viagem sem volta.

Um comentário:

Lili disse...

"Costumo responder, normalmente, a quem me pergunta a razão das minhas viagens: que sei muito bem daquilo que fujo, e não aquilo que procuro."
(Michel de Montaigne)