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terça-feira, 26 de maio de 2009

Filhos da Razão

imagem: www.avessodosponteiros.wordpress.com

Já faz um tempo, numa entrevista de um diretor de teatro no programa Provocações, da TV Cultura, o apresentador Antônio Abujamra fez um comentário mais ou menos nessas palavras: “O pior é saber que nós, nas nossas idades, ainda somos os mais modernos. Onde está a juventude para nos contestar, para nos desrespeitar, para nos mostrar que estamos errados?”.

Sempre fui um defensor da minha geração. Nunca admiti que um velho falasse que a juventude de hoje é isso ou aquilo, que é alienada, despolitizada. Que moral têm os velhos para falar de nós, jovens? Quais eram os seus desafios e quais são os nossos? Se existe uma coisa que odeio é aquele papo de velho ao estilo “meu jovem, ouça a voz da experiência...”.

Essa tal “voz da experiência” é um câncer do qual a sociedade tem que se curar o quanto antes.

É impressionante ver como nossos pais realmente acham que mudaram o país e o mundo. Falam de Woodstock, da revolução sexual, da luta contra a ditadura. Acham que a vida antes era mais difícil. Coitados... Não sabem nada do hoje, e ainda querem nos dar conselhos.

A liberdade sexual está aí, a ditadura se foi, e o mundo da Guerra Fria fala na irreversibilidade da globalização. E nós, como estamos? Temos tudo e nada ao mesmo tempo.

Os que dizem que a vida dos jovens hoje é mais fácil não têm idéia do que é viver sem causa, numa época que não pensa, que não reflete. Faço parte da juventude mais revolucionária de todos os tempos, mas que não tem inimigo. Não sabemos contra o que lutar. Vivemos na era da descrença: as religiões são uma farsa; a política, uma hipocrisia; e os sonhos, ilusões. Isso é que a juventude pensa, e de forma cada vez mais individualista.

Deve ser muito bom acreditar que é possível mudar o mundo, mesmo que o preço disso seja um pouco de ingenuidade. Somos, no entanto, os filhos da razão: céticos, perdidos e sedentos de fé.

domingo, 24 de maio de 2009

onomatopéias cintilantes,
paralisia bestial,
palavras não ditas,
malditas,
alto astral nebuloso.

Pena de papel,
teu travesseiro.
Dorme, mão que apedreja!
Amanhã vou te esperar,
embora não exista amanhã,
muito menos chegada.

Vai, vagabundo,
e não volta mais.
Teu caminho é só de ida.

Tua vida é num sentido só.

Tua boca não fala,
tua pele é branca, preta e cinza,
teu pé está machucado.

O que és tu?
O último refúgio
em um mundo prestes a se extinguir.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Pelo surgimento de "Vagabundas Iluminadas"

Semana passada postei (atrasado) aqui um texto que não era meu. Tratava-se de uma ótima crônica de Juremir Machado da Silva, publicada em 2003. O Diego deixou um comentário sugerindo que o debate prosseguisse. Pois bem, ele prosseguirá.

Nós, Vagabundos Iluminados, temos orgulho de nossa vagabundagem. Não damos à palavra "vagabundo" a carga negativa que lhe é atribuída pelos moralistas - aliás, considero esse tipo de gente o que de pior existe na sociedade.

Agora, e se surgissem "Vagabundas Iluminadas"? Sim, um grupo de mulheres, que seguisse a mesma filosofia e resolvesse adotar a mesma denominação que nós, só que no feminino. Seriam bem-vistas? Sofreriam preconceito até mesmo por quem defende a vagabundagem?

Pois isso revela o quão forte é a dominação masculina na sociedade. Afinal, "vagabunda" não é o feminino de "vagabundo". A mulher que tem rótulo de "vagabunda" é a que sai com vários homens - só que o cara que faz o mesmo com várias mulheres não é visto negativamente, é "garanhão" ou "matador".

Por isso, cabe a nós, Vagabundos Iluminados, fazermos a nossa parte, não chamando de "vagabunda" a mulher que "pula de galho em galho". Em primeiro lugar, para que uma Vagabunda Iluminada não sinta vergonha de se assumir como tal. Em segundo lugar, porque se a mulher quiser, pode sair com quantos caras quiser, isso não é da nossa conta - e colocar rótulo nas pessoas por causa de costumes é coisa de moralista. E em terceiro lugar, porque o uso errado do termo "vagabunda" reforça ainda mais a posição dos malditos moralistas.

Ainda mais que vagabundagem, como bem sabemos, não é ir pra "balada" (êta palavrinha asquerosa!) beijar trinta numa noite e não saber o nome de nenhuma - até porque naquele ambiente totalmente insalubre, é impossível conversar com alguém sem ser GRITANDO. O Juremir disse na crônica que "estamos mais livres, e também mais volúveis", e eu acho que essa é uma falsa liberdade. Afinal, são trinta pessoas pelas quais não se tem nada de afinidade, "pega-se" apenas para mostrar aos outros, caso contrário o que "pega" é o rótulo de "perdedor" - para o qual o vagabundo de verdade não dá a mínima.

Um exemplo de verdadeira vagabundagem é passar boa parte da noite - se não toda ela - tomando cerveja, de bar em bar. Chegar em casa, esquecer que é madrugada de sexta-feira e ligar pro amigo que acredita na balela de que "o trabalho dignifica o homem" (acreditou no papinho dos moralistas, então é bem-feito!). E terminar ouvindo Wander Wildner.

Como aconteceu naquele histórico 11 de janeiro de 2008.

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Mas, só pra variar, não sei por onde andava o Volmir, que não vagabundeou conosco.

terça-feira, 19 de maio de 2009

"Idéias fortes aparecem para quem fica mais tempo acordado." *

Bob Dylan

imagem: crondia.blogspot.com

- Faz tempo que estás aí?

- Faz... Estou aqui desde cedo, mas não tem problema: foi como se tivesse recém chegado. Dormi pouco essa noite, daí, vim pra cá.

- Tu andas dormindo pouco, e passando mais tempo aqui que em casa, tomando esses cafés frios. Por isso não dormes. Andaram me dizendo que tens saído daqui quase ao meio-dia, com o sol a pino.

- É, mas pouco importa. Em casa, faria o mesmo, perdido em pensamentos. Ao meio-dia, os cafés começam a fazer mal ao meu estômago, e o almoço está mais próximo que o desayuno. Troco um pelo outro.

- Haha... Entendo. Bem, vou pedir um café também, mas vou acompanhá-lo por um pão de queijo, pois meu estômago não é tão forte quanto o teu.

- Fazes bem. Senta-te, ainda falta para a hora do almoço, e me deste a idéia de pedir algo para comer também. Algo doce, porém.

- Pois peça. Mas então, o que tens feito nesses dias? Estavas viajando?

- Que nada. Tenho passado as manhãs nessa padaria, as tardes em casa, suportando o calor, escutando música e esperando a noite chegar... E às noites, tenho ido àquele bar, perto do porto. Essa época do ano é horrível: ninguém na cidade, comércio fechado, bares vazios e cervejas caras. Natal, por exemplo, nem sei por que é feriado, se não há nada para se fazer.

- Realmente... Bem, eu o passei com a minha namorada: fui para a casa dos pais dela, no interior do estado. Foi bom, nos divertimos, comemos bastante...

- Ter namorada nos faz perder o prazer de tomar cafés frios em padarias, em manhãs de terça-feira calorentas e monótonas...

- Eu sei, e é por isso que eu acho que tu andas precisando de uma. Esse é o tipo de prazer que deveríamos evitar.

- Não há prazer que deveríamos evitar. O que há são prazeres aos quais nem sempre teremos acesso. Veja o caso das cervejas caras, das quais falei: nessa semana de tédio, gastei tanto com elas que não sei como passarei o resto do mês. Pelo menos os cafés frios continuam baratos.

- Cafés feitos em casa são ainda mais baratos.

- Cafés feitos em casa não me fazem ver vovós comprando pão às 7h da manhã.

- E isso também é um prazer para ti?

- Elas deixam minhas manhãs menos solitárias, digamos assim. Aliás, tudo que faço parece ser para deixar minhas manhãs menos solitárias...

*Frase do título: brainstorm9.com.br

domingo, 17 de maio de 2009

O Rei do "iê-iê-iê"

Wander não é cult, não é moderno.

Ontem tive a oportunidade de ver essa estranha figura chamada Wander Wildner. Seus sapatos brancos, sua calça de goleiro de futebol, sua camisa estilo Reginaldo Rossi, seus óculos vermelhos... Wander só leva uma coisa a sério: a obrigação de não levar nada a sério. Como ele mesmo diz, não vai ir ao dentista para agradar uma mulher. Que fiquem ali seus dentes tortos, suas letras despudoradas e sem compromisso com nada.

Wander é o brega, na mais alta concepção que se pode ter desta palavra. O verdadeiro brega, o brega de raiz, aquele que brota dos mais escondidos redutos populares. Ou quem sabe apenas uma molequice de guri da classe média, que nunca cresceu. Pouca importa a origem do artista, desde que seja um verdadeiro artista, aquele que reflete um sentimento sincero e necessário, embora muitos desprezem.

Wander foi abandonado. Sua garota esteve na Nicarágua lutando pela revolução. Talvez ela tenha morrido por lá, nunca se soube ao certo. Mas Wander está aqui, está vivo, está cantando. O que importaria os problemas da Nicarágua? Enquanto esteve sozinho, trancava-se no quarto fazendo "homenagens" para sua amada. Mesmo assim, não poderia ficar todo o tempo parado. Decidiu que precisava fazer alguma coisa. E então tomou as rádios do sul do Brasil e depois do país inteiro. Embora seja tão conhecido por aqui, ele não é do Brasil, muito menos gaúcho. Wander é mais um latino-americano, e, embora cante em português, sua língua cotidinada é o espanhol. Poucos realmente o conhecem, e pensam o contrário, porém ele não tem nacionalidade. É o On The Road por excelência, um grande Vagabundo Iluminado, embora viaje numa direção um tanto inusitada com sua breguice.

Wander é o mito que sobrevive. Mas, neste caso, além do mito, sobrevive o moleque Wander, o chutador de balde Wander, o adulto que não quer ser adulto. E o melhor, está entre nós, nos mesmos bares, nas mesmas mesas, tomando as mesmas cervejas.

Wander é a mentira mais real que possa existir. É a mentira que vale a pena. É a história inventada e contada em prosa e verso: constrói o mito e nos mostra o quanto a realidade é sem graça.

Um viva ao brega gauche e genial de Wander Wildner!


terça-feira, 12 de maio de 2009

Carta Aberta

Querida Vivian;


Li com atenção um dos teus últimos escritos, e fiquei bastante agraciado com o que encontrei lá, ao mesmo tempo em que um sorriso me vinha aos lábios a cada palavra da tua mente que ressoava na minha, através das palavras que lia. Embora já sejamos amigos há algum tempo, não pensei que nossa afinidade chegasse a tanto, a ponto de me reservar um tempo para, diretamente, comentar contigo o que lá escreveste.

Antes de qualquer coisa, gostaria de mostrar minha solidariedade com o que sentes, pois foi esse o sentimento que me veio quando li o teu texto, sendo o que me incentivou a te escrever essa carta. Da mesma forma que tu, costumo frequentemente me sentir uma pessoal solitária, meio que de forma patológica. Comigo, no entanto, essa solidão vem em surtos, em manhãs de domingo tendentes à ociosidade, ou em madrugadas como essa, na frente na tela do computador, enquanto te escrevo essas frases, às vezes regadas a vinhos e baladas antigas, às vezes tomadas simplesmente por uma ansiedade tão patológica quanto aquela solidão, que não me deixa dormir.

Agradeço, todavia, a essas madrugadas insones, o fato de ter te conhecido. Afinal, se não fossem elas, perderia muito das conversas que já tivemos, e da companhia que, muitas vezes, era somente a tua, no outro lado de uma janela de computador. E me impressiona o fato de, apesar disso, ainda não ter tido a disposição suficiente para agarrar minha mochila e ir atrás de ti, para, enfim, te conhecer pessoalmente. Acho que isso se deve a um certo receio que tenho de te desmistificar, de perder a magia que rodeia essa nossa amizade tão pitoresca, se não singela. É como se temesse, como tantas vezes já temi, que ver-te na minha frente mais que sacie a vontade de te ter a meu lado, mas induza a vontade de te ter nos meus braços.

Pois disseste que amas somente pelo prazer de amar, sem esperar retorno pelo que sentes, e que isso é um sofrimento com o qual te acostumaste. Digo-te, Vivian, que há poucas coisas tão apaixonantes numa pessoa quanto essas tuas impressões nostálgicas, ao mesmo tempo em que há outras tão raras capazes de fazer com que as pessoas se afastem. Assim penso eu, pois tenho a sensação de que costumo me afastar daquilo que admiro, da mesma forma que evito qualquer estrada que rume à Niterói, sob o temor de enfrentar sentimentos que desconheço. Isso, no entanto, não significa que não haja amor em retorno a ti: significa, só e talvez, que esse amor também esteja escondido, lá junto com a solidão de que falaste, não intentando nada em troca como o teu, sem assim, porém, um dia poder encontrá-lo.

Parece que amor e solidão são uma coisa só, não é mesmo? Que um leva ao outro necessariamente. Fico impressionado quando vejo as pessoas colocando o amor como meta de vida, ou desejando isso a outras em seus aniversários. É como se lhes desejassem essa solidão que sentimos juntos, essa amargura no fundo do peito, ao mesmo tempo em que esse desejo de que as coisas fossem diferentes, essa vontade de simplesmente sermos iguais aos outros. E quando finalmente o nosso amor é correspondido, sentimos saudades das nossas madrugas de conversa pela internet, das nossas músicas regadas a goles de vinhos e cervejas, sozinhos em nossos quartos, zanzando em círculos até os primeiros raios de sol aparecerem por entre os prédios e o sono nos abater por completos.

Enfim, minha querida Vivian, acho que sei o que quiseste dizer...

Só te peço a gentileza de não interpretares mal essa carta. Minha intenção com ela foi somente, como já disse, mostrar minha solidariedade, e dizer o quão me identifico contigo e com o que escreveste – o que me deixou tentado a isso te dizer. De um tempo para cá, escrevendo aos outros, tenho visto o quão meus sentimentos incomuns, que antes pensava serem somente meus, são também de outras pessoas, e isso tem me feito bem. Espero, portanto, que compartilhar o que sinto contigo também te faça.


Deixo-te, por fim, um carinhoso beijo.


Do teu admirador,

Diego

p.s. Linda a foto do farol.

domingo, 10 de maio de 2009

mais coisas de vagabundo

Bah, Rodrigo, eu realmente não me lembro onde me encontrava nesse dia que tu retrataste no post anterior.

Mais coisas de vagabundo (retrato aqui de casa):

terça-feira, 5 de maio de 2009

Onde está todo mundo?

PORTO ALEGRE, 24 DE AGOSTO DE 2007.

Sigo lendo a lendária obra de Kerouac, On the Road (...). Recém terminei a primeira parte, aquela em que Sal retorna à Nova York fatigado, à casa de sua tia, após esmolar por uma passagem de ônibus na Times Square. Vinha de uma, digamos, decepcionante estada em Los Angeles, depois de cruzar o país aos poucos, devagar, como quem despe uma mulher. Tenho um problema grave: costumo me entregar à arte que aprecio. Serve para todas elas, de filmes a livros, se não músicas. (...) Com On the Road se passa o mesmo: ando me sentindo preso em casa, com vontade de cortar o país com dez reais na carteira e uma mochila nas costas, nada mais, tomando cervejas e conversando com cada garota que encontro pelo caminho. Na história de Kerouac, logo que Sal retorna à sua cidade, olha para os lados angustiadamente procurando seus amigos, como se eles necessariamente estivessem à sua volta, ali. Pergunta-se onde está todo mundo, mas não encontra ninguém. Ninguém está ali com ele, mesmo cercado pela multidão que já se impõe nas metrópoles dos anos 50. (...) (Somos) a América de meio século atrás, a América de Kerouac: sedenta por pôr o pé na estrada, por conhecer a si própria. Mas, enquanto isso, estamos sós. Cercados por pessoas, mas solitários em nossos objetivos, em nossos planos, na nossa ausência de ideais. Onde estarão os mochileiros que descobrem o mundo com suas irresponsabilidades, com seus poucos centavos no bolso e sua simples vontade de descobrir a vida? Parece que cruzamos o país enfrentando a fome, o trabalho nas plantações de algodão, a chuva e o deserto. Chegamos em casa, mas não encontramos ninguém.

sábado, 2 de maio de 2009

O amor pela madrugada

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Cultivo uma relação amorosa com a madrugada desde os meus mais remotos tempos. Tenho nela uma afinidade difícil de definir. Lembro-me de ter sete ou oito anos e já adentrá-la até altas horas. Obviamente sob sigilo em relação aos pais, mas eu dava um jeito. Não tinha preço aquela sensação de transgredir o estabelecido e sentir as delícias daquela solidão. Muitas vezes, ainda, meu desejo era chegar até ao amanhecer, mas dificilmente conseguia. Naqueles tempos eu não tinha a habilidade que tenho hoje.

Atualmente, mais do que uma companheira, ela se tornou uma esposa fiel. Devasto noites adentro, seja numa mesa de bar ou simplesmente ouvindo o silêncio tão cheio de vida das horas já passadas. Incrível sensação de pacifismo e liberdade. O que há de maléfico no mundo, naquele momento, está silenciado. Parece que ninguém mais poderá erguer a voz para contrariar alguma coisa. Tudo passa a ser afirmativo. Tudo passa a ser permitido para a aguçada imaginação. Conto os minutos para que não recomece os afazeres do dia-a-dia pela manhã, momento tão bem descrito por Carlos Drummond, quando então ressurge a Máquina do Mundo: "Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra / e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer. / Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina / e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras". E continua em outra passagem: "esse amanhecer / mais noite que a noite".

A madrugada guarda uma cumplicidade peculiar. É o momento em que as pessoas que amamos estão a salvo. Enquanto dormem, estão isoladas de qualquer força destrutiva. Estão lá, mergulhadas em seus sonhos, sejam eles bons ou ruins, mas sobretudo sonhados em segurança. Existe o descansar, a fadiga sendo recomposta no justo equilíbrio do corpo. Existe o sono, refém de si mesmo, independente da forma do colchão. Todos são iguais nesse momento, que tanto se assemelha à morte quando se trata da distribuição monetária dos seres. E, diante disso tudo, estão meus olhos atentos, contemplativos, embevecidos de curiosidade e ardência.

Madrugada, que é minha e eu sou dela. Formamos uma dupla tão leal um ao outro, que muitas vezes já fui penalizado pelo dia. Ao ponto de perder a lotação, perder o horário do almoço, não conseguir me concentrar nos afazeres utilitaristas... Mas isso é típico da natureza desse relacionamento, já que todo amor exige alguma abnegação, uma forma de demonstrar o comprometimento prometido. Tenho certeza que a madrugada já foi também penalizada por algo, que ainda não percebi exatamente o que é.

Faço dela meu aconchego. Debruço-me sobre a mesa. Nada me atinge nas horas calmas do seu embalo. Madrugada, que tanto sigo: na verdade só ela sabe realmente quem sou.

(Discípulo)