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terça-feira, 14 de abril de 2009

Mulheres de Verdade

Clarice Lispector

Há quem diga que os Vagabundos Iluminados são machistas.

Ora, essa declaração só pode vir de alguém com, digamos, pouca capacidade de entender as coisas. Pessoas inteligentes entendem que esse blog, muito pelo contrário, tem por finalidade exaltar as mulheres, mas as mulheres de verdade, e não essas bonecas de plástico que vemos por aí. Sinceramente, eu diria até que esse blog é feminista: um espaço de luta contra o maniqueísmo com que as mulheres são tratadas atualmente.

No entanto, pode parecer às vezes, e mesmo às pessoas inteligentes, que nossa definição de “mulher de verdade” não seja muito clara. E, de fato, não o é, tampouco para nós: cada Vagabundo tem a sua definição de “mulher de verdade”, sua imagem preferida que vem à mente sempre que se sente só numa noite de domingo, à frente de um copo de vinho, ou diante de um livro de Kerouac.

Parece consenso entre todos os Vagabundos, porém, por exemplo, que uma mulher de verdade deva ser inteligente. Esse papo de que homem gosta de mulher burra é uma besteira! Ou melhor, é verdade, mas sob uma pequena condição: homens burros gostam de mulheres burras. Às vezes, prezada leitora, e é bom avisar, os homens burros lhes tratam como se todas vocês, sem as honrosas exceções, fossem burras (e, confessemos, cá entre nós, que às vezes também é isso que vocês querem, mas, enfim, deixemos isso para uma outra ocasião). Então, a você, prezada leitora, talvez seja conveniente tratar um pouco também das características do homem burro: o homem burro, por exemplo, gosta de axé e de micaretas (aliás, para um Vagabundo Iluminado, gostar de axé e micaretas é a definição de burrice), de música sertaneja, de MPB, de samba e de coisas do tipo Los Hermanos; se emociona com telenovelas; não bebe; não cospe; prefere comer uma mulher olhando-a nos olhos que a pondo de quatro; não fala palavrões; e, o pior de tudo, geralmente têm facilidade em iniciar conversas com vocês. Portanto, se um dia, prezada leitora, tu conheceres um homem assim, trata-se, na verdade, de um homem burro; e se ele está interessado em ti, é porque tu és, no mínimo aparentemente, uma mulher burra também.

Rita Lee

Para um Vagabundo Iluminado, seguindo a definição, uma mulher de verdade igualmente não tem neuroses com a aparência. Calma, querida, não é isso: sabemos, sim, e bem, avaliar a beleza de uma mulher, e gostamos que vocês se cuidem, sejam cheirosas e fogosas. O que não suportamos é aquele cabelo queimado de chapinha, aquela pele laranja de sol, aquela cara dura de maquiagem, e aquelas frescuras todas de não-me-toques. A mulher de verdade sabe que é bela naturalmente, sabe valorizar seu charme, e entende que um Vagabundo Iluminado é capaz de reconhecê-la assim, fazendo disso sua maior arma de sedução.

Um dia, imaginem, leitores, uma dessas pessoinhas medíocres que tanto nos cercam me perguntou se, a desdém das minhas opiniões, eu costumava bater punheta para as Xeilas da vida ou para uma das minhas tais “mulheres de verdade”. Ora, respondi, é lógico que para as Xeilas da vida. E sabem por quê? Porque, para um Vagabundo Iluminado, as Xeilas servem para isso mesmo: bater punheta, dar com o tico na cara, meter uns tapas na bunda e, no dia seguinte, comentar sobre isso com os amigos. A mulher de verdade, por sua vez, é aquela que admiramos, que respeitamos, a quem levamos flores, em quem queremos aconchegar nossa cabeça por entre os seios em noite frias, com quem queremos andar de mãos dadas pela rua, e com quem queremos ter noites e mais noites de amor de verdade - como merecem elas, e nós.

Rosa Luxemburgo

Porque a mulher de verdade não se define somente em algumas características. A mulher de verdade são nomes e personagens: Clarice Lispector é mulher de verdade; Cat Power é mulher de verdade; Elis Regina é mulher de verdade; Rosa Luxemburgo; Janis Joplin; Rita Lee; e outras tantas conhecidas e anônimas que vemos por aí, correndo com seus tênis simples pelas ruas, com seus livros embaixo do braço, suas peles brancas com bochechas rosadas, seus cabelos crespos, suas pernas finas, seus olhos profundos, seus pensamentos distantes, e tudo o mais que compõe a mais intensa beleza de um ser, que é a beleza das mulheres.

Essas, sim, mulheres de verdade.

8 comentários:

Discípulo disse...

Po, Diego, representou bem o pensamento de nós, Vagabundos Iluminados, acerca das mulheres de verdade. Obviamente achamos a bunda das "Xeilas" um tesão. Mas servem pra isso mesmo, ter tesão, mandar pro inferno e depois dormir. Mulheres de verdade são aquelas que queremos levar ao cinema, conversar sobre uma peça de teatro ou comentar sobre um romance, e ao final da noite nos enlaçarmos embaixo dos lençóis.
É bem verdade que repudiamos o romantismo tosco dos sertanejos e los hermanos da vida, se bem que eu também to criando uma aversão a certas "MPBistas" que não conseguem ver nada pra frente e só olham pra trás. Mas não vem ao caso.
O que vem ao caso, e essa é a grande verdade, é que uma mulher de verdade para o Vagabundo Iluminado é aquela que de alguma forma consegue surpreender. Aquela que de alguma forma faz o imprevisível e, com isso, encanta. É aquela que no mínimo gesto provoca uma fascinação inexplicável.

E como são raras! Como são!

Discípulo disse...

ahhh...
vou deixar aqui o link do meu blog particular onde faço uma homenagem à Clarice Lispector, uma dessas raridades...

http://corujalunatica.blogspot.com/2009/03/felicitacao-todas-as-mulheres-pelo-seu.html

Rodrigo Cardia disse...

Assino embaixo, Diego, mas só acho que faltou uma mulher dentre as homenageadas: Olga Benario.
Para mim ela era a mulher mais perfeita que poderia existir: bonita, inteligente e revolucionária!

Rodrigo Cardia disse...

Se bem que a Rosa Luxemburgo está na lista também, e merece estar.

Rodrigo Cardia disse...

Aproveitando: pelo visto, nossas vagabundagens correm o mundo, olhem o mapa!
Fomos lidos no JAPÃO!

Rodrigo Cardia disse...

Camaradas, acabei de descobrir algo: a foto que o Diego postou como sendo da Rosa Luxemburgo, na verdade é da Olga Benario...

Rodrigo Cardia disse...

A propósito, fiz a troca pela imagem correta.
No meu post de amanhã, coloco a Olga.

Priscilla disse...

Axé e micaretas, burrice? Questão de gosto, não? Tem gente que gosta de rock e é rotulada como maconheiro, "vagabundo”, “burro”...Sei que não é assim. Conheço pessoas que gostam de axé, MPB, micaretas e são muito inteligentes, assim como pessoas que gostam de rock. Generalizar é d+.
O Victor, do "Victor e leo", gosta de música sertaneja e o trabalho dele é cantá-las e o cara não é burro, se vc der uma olhadinha no site deles vai ver que o camarada escreve muiiiito bem e fala muito bem. É burro? Fazer amor, transar olhando nos olhos de alguém é questão de romantismo. Ficar de quatro são diversidades que um casal encontra para sair da rotina na cama, mas olhar nos olhos é fundamental. Sou burra por pensar assim? Não falar palavrões é uma questão de educação, de confiança, muitas pessoas falam palavrões "adolescentes" para mostrar que estão crescidinhos e pensam que fazem bonito falando assim. Tem pessoas que esquecem que já passaram dessa fase. Gosto de música sertaneja, MPB, quando tenho oportunidade de ir a uma micareta, vou, pq gosto de dançar, brincar e me divertir. Isso é burrice? Acho que não!! Não penso assim. Respeito sua opinião, claro!
Que tem mulheres que se "enfeitam" quando passam aquele monte de pó colorido na "cara" e tiram sua beleza natural.... É a pura verdade!! Aliás, estava conversando sobre isso com uma amiga minha no meio de um show de música sertaneja. Sou a favor do natural, sempre! Nisso concordo plenamente.
Sucesso aos “Vagabundos Iluminados”!!